Atendo Fábio*, 9 anos, com sua mãe no consultório, em uma situação de urgência. Desde o início da manhã havia apresentado fortes dores de barriga, andava encurvado de tanta dor. Apresentou febre, e tinha uma história de que, no final de semana imediatamente anterior, frequentara um galinheiro (!) em um sítio. Já viu, né? Muita "novidade" junta em uma criança maravilhosa que não costuma fazer charminho. Mandei vir na clínica, assim que pude atender.
Examino o Fábio - realmente abatido - enquanto converso com sua mãe, explico algumas possibilidades, teríamos que afastar alguns quadros mais severos (apendicite, hepatite), solicitei alguns exames, mas conclui que minha principal hipótese é de que se tratasse mesmo de uma enterite viral (uma inflamação simples dos intestinos provocada por um vírus).
Ao final da consulta, pergunto para o Fábio, "e aí, você tem mais alguma dúvida?"
E ele, "Eu vou morrer?"
Dei-me conta que todo o discurso, toda a explicação, tudo o que disse para a mãe teria de ser re-discursado, re-explicado, re-dito para ele - é claro. E que, mais do que nunca, em situações de apreensão como aquela, a criança precisa ser considerada - por pais e profissionais - em discussões ou decisões.
É aquela história: você sabe disso. Você usa isso. Mas, às vezes, você se esquece. Valeu, Fábio - que está bem melhor a essa altura - pela re-lembrança. A gente tem mesmo que estar sempre atento pra essas necessidades de comunicação entre profissional e a criança.
*nome fictício.

