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sábado, 6 de dezembro de 2008

Direto ao ponto


Atendo Fábio*, 9 anos, com sua mãe no consultório, em uma situação de urgência. Desde o início da manhã havia apresentado fortes dores de barriga, andava encurvado de tanta dor. Apresentou febre, e tinha uma história de que, no final de semana imediatamente anterior, frequentara um galinheiro (!) em um sítio. Já viu, né? Muita "novidade" junta em uma criança maravilhosa que não costuma fazer charminho. Mandei vir na clínica, assim que pude atender.
Examino o Fábio - realmente abatido - enquanto converso com sua mãe, explico algumas possibilidades, teríamos que afastar alguns quadros mais severos (apendicite, hepatite), solicitei alguns exames, mas conclui que minha principal hipótese é de que se tratasse mesmo de uma enterite viral (uma inflamação simples dos intestinos provocada por um vírus).
Ao final da consulta, pergunto para o Fábio, "e aí, você tem mais alguma dúvida?"
E ele, "Eu vou morrer?"
Dei-me conta que todo o discurso, toda a explicação, tudo o que disse para a mãe teria de ser re-discursado, re-explicado, re-dito para ele - é claro. E que, mais do que nunca, em situações de apreensão como aquela, a criança precisa ser considerada - por pais e profissionais - em discussões ou decisões.
É aquela história: você sabe disso. Você usa isso. Mas, às vezes, você se esquece. Valeu, Fábio - que está bem melhor a essa altura - pela re-lembrança. A gente tem mesmo que estar sempre atento pra essas necessidades de comunicação entre profissional e a criança.

*nome fictício.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Relações entre pais e profissionais


Na semana que passou tive a oportunidade de vivenciar uma experiência rara e preciosa para a vida de um profissional: uma devolutiva de um casal acerca de minha conduta profissional. Eu acompanhava este casal e seus filhos há muitos anos, tínhamos uma boa relação, e nos últimos 12 meses esta família estava sendo atendida por outro pediatra.

O dia-a-dia de um pediatra é tão atarantado que um desgarramento desta natureza nem sempre é percebido de forma clara. O convívio deixa de existir, mas é muito difícil para quem atende mais de uma centena de crianças por semana reconhecer que uma em especial deixa de retornar, e não raro a "descoberta" ocorre por acaso, quando outro paciente comenta a situação, quando se encontra o paciente fora do consultório, ou simplesmente quando se apercebe que aquela família deixa de manter contato.

Pois bem: este casal deixou de manter contato por um ano, mas retornou na semana passada. E a conversa que abriu a consulta foi repleta de significado: as dificuldades na sala de espera às vezes congestionada, problemas com horários, desacordos com condutas... Entretanto, os pais relataram que não conseguiram construir um vínculo com outros profissionais - e foram muitos, segundo eles - tão significante quanto aquele que tínhamos, o que os impeliu a retornar à minha clínica.

Apesar de comentar que estava - e estou - muito feliz com o regresso, o que mais me impactou foi a sinceridade e cordialidade do casal em me apontar necessidades de desenvolvimento da clínica e de minha prática, sob seus pontos de vista. A cristalina preocupação com a melhoria do desempenho do profissional, o interesse na mudança e a genuína expressão da crítica construtiva me encantaram e tiveram grande repercussão na forma como encaro o consultório e meus clientes.

Que bom seria se as relações entre os pais e os profissionais de saúde fossem regidas por tais princípios!


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