
Na semana que passou tive a oportunidade de vivenciar uma experiência rara e preciosa para a vida de um profissional: uma devolutiva de um casal acerca de minha conduta profissional. Eu acompanhava este casal e seus filhos há muitos anos, tínhamos uma boa relação, e nos últimos 12 meses esta família estava sendo atendida por outro pediatra.
O dia-a-dia de um pediatra é tão atarantado que um desgarramento desta natureza nem sempre é percebido de forma clara. O convívio deixa de existir, mas é muito difícil para quem atende mais de uma centena de crianças por semana reconhecer que uma em especial deixa de retornar, e não raro a "descoberta" ocorre por acaso, quando outro paciente comenta a situação, quando se encontra o paciente fora do consultório, ou simplesmente quando se apercebe que aquela família deixa de manter contato.
Pois bem: este casal deixou de manter contato por um ano, mas retornou na semana passada. E a conversa que abriu a consulta foi repleta de significado: as dificuldades na sala de espera às vezes congestionada, problemas com horários, desacordos com condutas... Entretanto, os pais relataram que não conseguiram construir um vínculo com outros profissionais - e foram muitos, segundo eles - tão significante quanto aquele que tínhamos, o que os impeliu a retornar à minha clínica.
Apesar de comentar que estava - e estou - muito feliz com o regresso, o que mais me impactou foi a sinceridade e cordialidade do casal em me apontar necessidades de desenvolvimento da clínica e de minha prática, sob seus pontos de vista. A cristalina preocupação com a melhoria do desempenho do profissional, o interesse na mudança e a genuína expressão da crítica construtiva me encantaram e tiveram grande repercussão na forma como encaro o consultório e meus clientes.
Que bom seria se as relações entre os pais e os profissionais de saúde fossem regidas por tais princípios!